Marianela Arocha (Equador) – EnAguas Resonante – Festival Internacional SOXXI –  Espanha

Título do projeto: EnAguas Resonantes. Ágora Iberoamericana de compositor∀s
Nome do artista/grupo: Marianela Arocha
País: Equador
Linha de convocatória: Apoio à circulação de profissionais da música
Ano da convocatória: 2024

A participação de Marianela Arocha no projeto EnAguas Resonantes. Ágora Iberoamericana de compositors — realizado em outubro de 2025 em Valência, Espanha— permite situar seu trabalho em um cruzamento claro entre criação contemporânea, docência e compromisso com problemáticas atuais. Compositora, pianista e docente, Arocha nasceu na Venezuela e reside em Loja, Equador, de onde desenvolve uma prática artística contínua que combina a escrita musical com a pesquisa sonora e a formação acadêmica.

Seu perfil se caracteriza por uma atenção particular ao timbre e aos processos de transformação do som. Em obras como Torrentes sonoros, apresentada no âmbito do festival, aparece com clareza uma de suas linhas de trabalho: pensar a música como um sistema em movimento, onde os materiais circulam, se reciclam e se transformam, em diálogo com ideias provenientes do meio ambiente e da ecologia. Essa sensibilidade não é abstrata: está vinculada a preocupações concretas sobre o uso dos recursos, os territórios e as formas como habitamos o mundo.

O Festival Internacional SOXXI na Valência, Espanha, onde foi convidada em colaboração com Ibermúsicas, reuniu compositoras de diferentes países ibero-americanos em uma série de concertos, palestras e atividades formativas. Ali, Arocha participou tanto da estreia de obras —treze peças interpretadas por um ensemble de percussão— quanto de espaços de intercâmbio com o público e com outras artistas. “Ficamos as participantes altamente agradecidas e realizadas no aspecto criativo-musical”, afirma, referindo-se à importância dos colóquios posteriores aos concertos, nos quais cada compositora pôde compartilhar seu processo de trabalho.

Para além dos concertos, um dos eixos centrais de sua participação esteve no âmbito educativo. Por meio de conferências-concerto em conservatórios, universidades e centros culturais de cidades como Xàtiva, Carcaixent e Ontinyent, Arocha abordou temas como a relação entre timbre e meio ambiente, a criação contemporânea e as problemáticas sociais atuais, incluindo a migração e as desigualdades de gênero. Nesses espaços, a música foi apresentada não apenas como obra finalizada, mas como processo aberto, capaz de gerar reflexão e diálogo.

A perspectiva de gênero foi também um componente central do projeto. A visibilização de compositoras —muitas vezes ausentes nos circuitos tradicionais— se articulou tanto nos repertórios quanto na presença em meios de comunicação e atividades públicas. Em paralelo, o enfoque ecológico e social ampliou o alcance das propostas, conectando a criação musical com temas urgentes da realidade latino-americana.

O impacto da experiência se estendeu para além do próprio festival. Graças ao apoio de Ibermúsicas, abriram-se novas possibilidades de circulação e colaboração: desde o planejamento de uma segunda edição do encontro em 2026 até a projeção de iniciativas semelhantes em outros países, e inclusive a participação em projetos vinculados à memória, arquivo e gênero na América Latina. Também se fortaleceram redes entre compositoras de países como Colômbia, Chile e Equador, consolidando uma trama de trabalho que segue ativa.

Em termos pessoais e profissionais, Arocha destaca o valor de ter podido concretizar a estreia de sua obra em condições de alto nível interpretativo, algo que nem sempre é acessível. Mas sublinha, sobretudo e novamente, o encontro com outras criadoras: “O encontro de compositoras ativas no evento constitui um fortalecimento e impulso de alto impacto na minha carreira artística e profissional”. Trata-se de um espaço de intercâmbio que, como ela mesma assinala, resulta “consideravelmente enriquecedor e vivencial”, tanto no plano artístico quanto no humano.

Nesse percurso, o papel de Ibermúsicas aparece como decisivo. A própria compositora o valoriza explicitamente e o descreve como uma oportunidade-chave em contextos onde os recursos para a criação e a circulação são limitados. Nas palavras de Arocha, trata-se de um programa que “abre portas para ideias enriquecedoras para futuros eventos e projetos”, contribuindo de maneira concreta para o desenvolvimento do setor musical na região.