Título do projeto: Mulheres nas músicas de tradição oral
Nome do artista/agrupação: Enkelé
País: Colômbia
Linha de convocatória: Apoio à circulação de profissionais da música
Ano da convocatória: 2024
Há tradições que, mesmo sendo profundamente vitais, circulam em margens silenciosas: são cantadas, dançadas, transmitidas, mas nem sempre conseguem projetar-se para além de seus territórios de origem. Nesse ponto de tensão — entre a persistência da memória e os desafios de sua circulação — situa-se o trabalho do Enkelé, uma agrupação colombiana que assume a música de tradição oral não como um repertório fixo, mas como um campo em movimento, aberto a novas vozes, corpos e narrativas.
Mulheres nas músicas de tradição oral não é apenas o título do seu projeto: é também uma forma de se posicionar dentro dessa tradição. Sete mulheres — provenientes de diferentes regiões do país, de Arboletes a Bucaramanga, atravessando o Caribe e o Magdalena Médio — se reúnem sob uma mesma premissa: habitar os bailes cantados a partir de uma perspectiva contemporânea, coletiva e diversa. O Enkelé retoma as linguagens da cumbia, do bullerengue e da tambora, mas o faz deslocando certos papéis historicamente naturalizados: em cena, as integrantes cantam, dançam e executam instrumentos de percussão como o tambor alegre, a tambora ou o llamador, ampliando assim as possibilidades expressivas dessas músicas.
Esse gesto, longe de romper com a tradição, dialoga com ela. A música das margens do Magdalena Médio e do Caribe colombiano — atravessada pela herança da diáspora africana — tem sido historicamente um espaço de transmissão comunitária, onde o canto funciona tanto como celebração quanto como memória. O Enkelé se insere nessa genealogia, mas incorpora também composições próprias e narrativas contemporâneas: canções que abordam experiências de vida marcadas pela violência, pela resiliência e pela reconstrução do tecido social. “O cotidiano parece estar cheio dessas histórias… que se transformaram em um canto para aliviar a tristeza, alegrar o espírito e promover mudanças”, afirmam.
A turnê Pa’ la cima, realizada em março de 2025 com o apoio do Ibermúsicas, permitiu que esse universo sonoro se expandisse em diferentes contextos da América Latina. O percurso começou em Recife, Brasil, no Rec-Beat Festival (3 de março), uma plataforma fundamental para músicas independentes e de raiz. Seguiu na Costa Rica com apresentações em Alajuela (6 de março) e San José (9 e 14 de março), no âmbito de espaços como o TREMENDASFEST e o Mercado Cultural de la Música URÁ, onde também ofereceram oficinas e atividades formativas.
No México, a turnê adquiriu novas ressonâncias. Em Chilpancingo (16 de março), participaram do Fandango Mezcalero, um encontro intercultural que reúne tradições musicais de diferentes regiões. Em 18 de março, apresentaram-se na Cidade do México no contexto do Dia Internacional da Mulher no Tribunal Electoral del Poder Judicial de la Federación, e no mesmo dia em Puebla; o encerramento ocorreu em 20 de março no Foro Cultural Hilvana. Ao todo, foram oito concertos com públicos entre 100 e mais de 200 pessoas, aos quais se somaram três atividades formativas na Costa Rica, centradas na transmissão de ritmos, saberes e abordagens vinculadas às musicologias feministas.
Para além da dimensão cênica, a turnê funcionou como um espaço de intercâmbio. Na Costa Rica, o Enkelé participou da cogestão do TREMENDASFEST junto à agrupação Son Semillas, fortalecendo redes entre projetos liderados por mulheres. No Mercado URÁ, estabeleceram vínculos com programadores e gestores culturais de diferentes países, ampliando assim suas possibilidades de circulação futura. Essa construção de redes — artística, pedagógica e comunitária — aparece como um dos eixos centrais de sua prática.
Em termos de trajetória, o Enkelé vem se consolidando desde sua criação em 2018 como uma das propostas emergentes mais singulares dentro da música tradicional colombiana. Sua participação em festivais como o Carnaval de Barranquilla — onde receberam o Congo de Oro como grupo revelação —, o Colombia al Parque ou o New Orleans Jazz Festival evidencia um percurso que articula o local e o internacional, o tradicional e o contemporâneo.
Nesse contexto, o apoio do Ibermúsicas torna-se decisivo não apenas em termos logísticos, mas também simbólicos: viabiliza a presença dessas músicas em circuitos internacionais e contribui para seu reconhecimento em novos cenários. Como sintetizam as próprias integrantes do Enkelé, “Ibermúsicas ha sido un programa que ha apoyado y resaltado este trabajo, permitiendo llegar a espacios y festivales de alta importancia”.

