Niyireth e Sofía Elena (Colômbia) – Mulheres e música de montanha – Turnê pela Espanha, França e Luxemburgo

Título do projeto: Mulheres e música de montanha  
Nome do artista/agrupação: Niyireth e Sofía Elena  
País: Colômbia  
Linha de convocatória: Apoio à circulação de profissionais da música
Ano de convocatória: 2024  

A discriminação, o assédio sexual, a escassez de oportunidades para o progresso profissional, a desigualdade salarial e a falta de visibilidade são algo muito comum na indústria da música”, afirma Neeta Ragoowansi em Women in Music. A citação não funciona apenas como um diagnóstico geral, mas também como um marco a partir do qual se pode compreender a urgência de projetos como Mujeres y músicas de montaña: uma proposta que emerge precisamente no cruzamento entre a invisibilização de gênero e a invisibilização territorial. Porque, se as mulheres foram historicamente relegadas na música, as músicas andinas —ligadas a geografias de montanha, ao rural, ao não central— também sofreram um deslocamento simbólico dentro dos circuitos de legitimação cultural.  

Nesse duplo limite —ser mulher e fazer música a partir da montanha— inscreve-se o trabalho de Niyireth Alarcón e Sofía Sánchez, núcleo artístico deste projeto que, mais do que um concerto, propõe uma experiência expandida: apresentações musicais, rodas de conversa, oficinas e espaços pedagógicos que convidam o público a percorrer a região andina colombiana a partir de uma perspectiva situada e feminina. A elas soma-se uma equipe inteiramente formada por mulheres —produção, design, gestão, comunicação—, o que reforça o caráter político do projeto não apenas em seu discurso, mas também em sua prática concreta.  

A proposta dialoga com uma tradição complexa. A música andina colombiana —bambuco, guabina, torbellino, pasillo, rajaleña— foi historicamente codificada a partir de uma sensibilidade masculina, tanto na composição quanto na interpretação e direção de grupos. “A história revela um costume marcado por um selo masculino que, para as mulheres, representou a necessidade de ultrapassar fronteiras e subverter relações de poder”, afirma o próprio projeto. Nesse sentido, Mujeres y músicas de montaña não rompe com a tradição, mas a reescreve a partir de dentro: recupera repertórios, incorpora composições de autoria feminina e reconfigura a narrativa histórica dessas músicas.  

A turnê internacional, realizada em 2025 com o apoio do Ibermúsicas, materializou essa proposta em sete concertos e atividades na Europa. O percurso incluiu uma apresentação, gravação e streaming no Estudi Rosazul (Espanha), além de uma série de concertos na França —Domblain, Saint-Dizier, Temple Paris Batignolles e a Maison de l’Amérique Latine—, bem como uma apresentação no Foyer Européen (Luxemburgo) e outra no Centre Culturel de Metz Queuleu. Em cada um desses espaços, a música foi acompanhada por instâncias pedagógicas: o público aprendia coros, padrões rítmicos e chaves interpretativas, transformando o concerto em um espaço participativo e de transmissão cultural.  

A recepção na Europa confirmou a potência do projeto. A imprensa local destacou a proposta como “uma viagem pelos Andes colombianos” (Le Républicain Lorrain, 2025), ressaltando tanto a qualidade interpretativa quanto a dimensão narrativa do espetáculo. Essa ideia de viagem não é menor: trata-se de transportar não apenas músicas, mas também formas de habitar o território, de contar a história e de construir memória coletiva a partir da voz das mulheres.  

Para além do plano cênico, a turnê permitiu fortalecer redes culturais entre a Colômbia e a Europa, especialmente na região do Grande Leste francês, onde instituições como AICOPI e a Compagnie Cuerdas Latinas vêm trabalhando há anos na difusão de músicas latino-americanas. Nesse contexto, a participação de Mujeres y músicas de montaña não apenas consolidou vínculos existentes, mas também abriu novas possibilidades de circulação em cidades como Paris e Barcelona, ampliando o horizonte do projeto. Como afirma o próprio projeto, trata-se de “uma janela cultural para que a Colômbia expresse, com a voz de suas mulheres, a profundidade do canto andino”.  

Nesse cenário, o apoio do Ibermúsicas adquire uma dimensão estrutural. Não apenas possibilitou a mobilidade internacional e a realização da turnê, como também contribuiu para legitimar e ampliar um projeto que atua sobre desigualdades históricas. Como sintetizam as próprias artistas: o programa foi fundamental “pelo fortalecimento das redes já existentes e pela ampliação dessas redes”, além do respaldo simbólico que seu prestígio implica no âmbito ibero-americano.